Ontem estive em Vila Nova de Farmalicão, no auditório da CITEVE, para acompanhar em primeira mão o lançamento do piloto industrial de Digital Product Passport (DPP) em Portugal. O evento chamou-se "Transparency Behind Every Product" e, mais do que assistir a uma apresentação, foi uma tarde que confirmou algo que acredito profundamente: a indústria têxtil portuguesa está a fazer o que poucas regiões produtoras no mundo estão a fazer neste momento. A preparar-se antes de ser obrigada.
Fiz questão de estar presente porque o trabalho que estamos a desenvolver na World Collective está diretamente ligado ao que a CITEVE está a construir. E o que vi ontem só me deixou mais convicta de que estamos no caminho certo.
O que é o Digital Product Passport — e porque é que importa agora

O Digital Product Passport é um dos pilares do Regulamento de Ecodesign para Produtos Sustentáveis (ESPR), aprovado pela União Europeia. A sua implementação representa uma das maiores mudanças regulatórias para a indústria têxtil e de vestuário das últimas décadas.
Em termos simples, o DPP é um registo digital associado a cada produto, que contém informação verificada sobre a sua origem, composição de materiais, processos de produção, pegada ambiental e instruções de fim de vida. Não é uma etiqueta de marketing ou um report de sustentabilidade escrito com palavras bonitas. É um arquivo de dados estruturado, acessível por via de um QR code, que acompanha o produto ao longo de toda a sua vida útil.
De acordo com a Comissão Europeia, o ESPR tem como objetivo reduzir o impacto ambiental dos produtos colocados no mercado europeu, e o DPP é o mecanismo que torna a prestação de contas verificável.
A partir do momento em que a legislação delegada for adotada — prevista para início de 2027, com implementações faseadas pelos anos seguintes — os produtos têxteis vendidos na Europa terão de cumprir estes requisitos, com prazos de conformidade estimados em 18 meses após a publicação.
Não é uma questão de valores. É uma questão de acesso ao mercado.
A CITEVE e o trabalho que está a ser feito em Portugal
O que a CITEVE apresentou ontem não foi uma ideia ou um projeto-piloto em papel. Foi tecnologia operacional, desenvolvida especificamente para o setor têxtil e do vestuário português, com dois perfis distintos — um para marcas e outro para fornecedores — e uma arquitetura pensada para acompanhar a evolução da regulamentação à medida que os detalhes forem sendo definidos.
O projeto foi liderado por Ana Barros, a gestora responsável pelo DPP na CITEVE, com o desenvolvimento técnico do backend a cargo de Guilherme Maia. A abertura do evento contou com a presença de Bráz Costa, Diretor-Geral da CITEVE, e de António Amorim, presidente da instituição — o que diz muito sobre o nível de comprometimento institucional com esta agenda.
Uma das ideias centrais do evento foi a de que o DPP não é apenas uma obrigação regulatória. É um impulso para a digitalização de toda a cadeia de valor. E que fazê-lo antes do resto do mundo é uma vantagem competitiva para a indústria portuguesa.
Mário Jorge Machado, presidente da EURATEX — a confederação europeia da indústria têxtil e do vestuário — esteve presente e partilhou uma perspetiva que considero fundamental: a grande discussão em Bruxelas não é se o DPP vai trazer custos ou competitividade. A questão é como garantir que traz competitividade. E a sua leitura para Portugal é clara: o país tem condições para liderar.
O piloto industrial: uma oportunidade concreta
O evento teve como objetivo central lançar o Piloto Industrial do DPP da CITEVE para um grupo selecionado de candidatos.
Serão selecionadas 10 empresas participantes.
Esta é uma oportunidade rara: acesso a tecnologia desenvolvida especificamente para o setor, acompanhamento técnico direto, e um lugar na vanguarda de uma transformação que irá afetar todos os agentes da cadeia de valor nos próximos anos.
Segundo dados do McKinsey Global Fashion Index, as empresas que investem em rastreabilidade e transparência de dados têm em média 20 a 30% mais probabilidade de manter relações comerciais de longo prazo com marcas internacionais. A conformidade com o DPP não é um custo. É um diferencial competitivo que se traduz em acesso a mercados e a compradores.
O que ainda precisa de ser resolvido — e onde entra a World Collective
Ao longo do evento, ficou claro que um dos maiores desafios não é a tecnologia em si. É a escala.
Como é que os dados fluem de um fornecedor para várias marcas, através de diferentes sistemas de DPP, em diferentes mercados, sem que o processo se torne insuportavelmente manual e fragmentado? Como é que um fabricante em Portugal consegue responder às exigências de rastreabilidade de cinco marcas europeias diferentes, cada uma com os seus próprios sistemas e requisitos, sem ter de repetir o mesmo trabalho cinco vezes?
Esta é precisamente a questão que a World Collective foi criada para resolver.
Somos a camada de infraestrutura de dados que existe por baixo de todas as plataformas de DPP e compliance. A nossa abordagem é supplier-first: os fornecedores verificam os seus dados de produção uma única vez no nível dos tecidos, e esses dados ficam disponíveis para todas as marcas e todos os frameworks regulatórios que precisam deles. Um perfil. Múltiplos endpoints. Sem duplicação.
Temos redes de fornecedores ativos em diferentes países, dentre eles Turquia, Marrocos, Portugal, Índia, Colômbia e Estados Unidos e Alemanha. Em março de 2026, no Texhibition Istanbul e em parceria com Kinset, distribuímos mais de 120 workbooks de preparação para DPP e iniciámos o processo de onboarding de mais de 20 fábricas nas primeiras 24 horas. Estes fornecedores não estão à espera da legislação delegada. Estão a construir capacidade agora.
A questão que ficou no ar — e que define o futuro
Numa das intervenções mais marcantes do evento, foi colocada a seguinte questão: como é que os dados viajam internacionalmente e através de diferentes sistemas de DPP?
É a questão certa. E é a que mais me entusiasma, porque é exatamente o problema que estamos a trabalhar para resolver.
O DPP não pode ser uma solução isolada para cada mercado ou cada plataforma. Para ser verdadeiramente transformador — para cumprir a promessa de transparência que a regulamentação exige — precisa de uma camada de infraestrutura partilhada que conecte fornecedores, marcas, plataformas de DPP e frameworks regulatórios numa única arquitetura de dados.
De acordo com um relatório da European Environment Agency, menos de 1% dos produtos têxteis colocados no mercado europeu são atualmente acompanhados por dados de rastreabilidade completos ao longo de toda a cadeia de valor. O DPP foi criado para mudar isso. Mas só vai conseguir se a infraestrutura que liga os diferentes sistemas for construída de forma interoperável e escalonável.
É exatamente isso que estamos a construir.
#ProveIt: porque a solução técnica não chega sem consciencialização

Construir a infraestrutura é necessário. Mas não é suficiente.
Uma das realidades que mais nos preocupa — e que o evento de ontem confirmou — é que grande parte da indústria ainda não compreende a dimensão do que está a chegar. Não apenas o DPP. Também a Responsabilidade Alargada do Produtor (EPR), que exige exatamente os mesmos dados dos mesmos fornecedores, através de um sistema completamente separado, sem qualquer infraestrutura partilhada entre os dois.
De acordo com o diagnóstico de preparação para DPP que desenvolvemos na World Collective, a maioria das marcas pontua abaixo de 10 em 36 pontos nos critérios de conformidade. Não é um problema de valores. É um problema de infraestrutura. E o prazo está a aproximar-se.
Foi por isso que lançámos a campanha #ProveIt.
É um apelo direto a toda a cadeia de valor da moda — marcas, fornecedores, fábricas, fabricantes — para que deixem de construir sistemas pensados para mostrar o que querem mostrar, e comecem a construir a infraestrutura para provar o que a lei está a exigir. A transparência da cadeia de valor não pode continuar a ser construída com base em declarações voluntárias. Tem de ser construída com dados verificados, estruturados e que fluam de forma eficiente por toda a cadeia.
O manifesto da campanha está publicado em world-collective.com/blogs/news/proveit-campaign e é um convite aberto a qualquer organização, associação ou empresa que queira fazer parte desta conversa.
Uma tarde que valeu a pena

Saí do evento da CITEVE convicta de que Portugal está a fazer algo importante. A velocidade com que a indústria têxtil portuguesa está a adotar esta agenda é um sinal de maturidade e de visão estratégica que merece ser reconhecido.
O trabalho da CITEVE, de Ana Barros e da equipa técnica, é rigoroso, bem fundamentado e genuinamente relevante para o futuro do setor. E a presença de vozes como a de Mário Jorge Machado, da EURATEX, confirma que esta não é uma conversa local. É uma conversa europeia, e Portugal está na mesa.
Na World Collective, acreditamos que a transparência da cadeia de valor não pode ser construída com base naquilo que as empresas escolhem mostrar. Tem de ser provada. Com dados verificados. Com infraestrutura real. Com um sistema que escale.
Essa é a nossa missão. E é disso que trata a campanha #ProveIt.
Leia o manifesto completo e descubra onde a sua empresa está em termos de preparação: world-collective.com/blogs/news/proveit-campaign
Faça o diagnóstico gratuito de conformidade EU em 5 minutos: form.typeform.com/to/M1FXkyQ9
Júlia Vilaça é Communications & Brand Growth Lead na World Collective, uma plataforma de infraestrutura de dados para o sourcing global de moda, supplier-first e orientada para a era da conformidade.